Turquia e seus interesses geopolíticos | Valeria Rodriguez 

Turquia e seus interesses geopolíticos | Valeria Rodriguez 

Por Valeria Rodriguez 

A região do Mediterrâneo Oriental sempre foi uma área de influência e após a informação sobre a possibilidade de que existam enormes reservas de energia as tensões entre a Turquia e a Grécia aumentaram.

Em outras palavras, as tensões entre a Turquia e a Grécia no Mar Egeu são agravadas pelo conflito no leste do Mediterrâneo, o que aumentou nos últimos meses e que tem a ver com ouro negro.

Qual é o principal motivo da aventura de Ancara no Mediterrâneo?

Após a Primeira Guerra Mundial, a Europa, liderada pela Grã-Bretanha, traçou as fronteiras da Turquia de tal forma que o país, apesar de manter centenas de milhares de quilômetros de mar aberto, perdeu influência no Mar Egeu e no Mar Mediterrâneo, provocando o surgimento de tensões entre a Turquia e a Grécia.

Basta olhar para o mapa para perceber que as fronteiras de água da Grécia são como uma barreira para a Turquia; No Mar Egeu, as ilhas ao largo da Turquia pertencem à Grécia e os turcos foram originalmente sitiados em suas costas e só podem se beneficiar do Golfo de Antalya. No entanto, as ilhas do mar Egeu não são o alvo específico da Turquia.


Ancara quer desempenhar um papel chave estrategicamente no Mediterrâneo e é por isso que em 1974 invadiu o norte de Chipre e ocupou 37 por cento da ilha. No momento, o problema não foi resolvido, já que a República Turca de Chipre, apesar de ser reconhecida pela Organização de Cooperação Islâmica (composta por 57 países e 6 observadores, incluindo a Venezuela), não é reconhecida pela a ONU, que reconhece a soberania de toda a ilha.


Apesar disso, o Chipre não é a única questão que interessa a Erdogan, que ainda continua a se aventurar na Síria, tendo um papel bastante polêmico por atuar em duas frentes em Idlib produzindo desentendimentos com seus aliados Irã e Rússia, agora também incorporou a Armênia e o Azerbaijão ao conflito, não apenas apoiando este último, mas também contribuindo com as forças terroristas aliadas a Idlib para o conflito, o que complica ainda mais a situação.

Basicamente o interesse do país otomano é manter seu poder energético, levando em consideração que a família de Erdogan tem laços muito profundos com a indústria de energia e durante sua gestão fechou grandes acordos com diversos países como a Rússia, com quem inaugurou o gasoduto Turk Stream.

Por sua vez, também tem interesses com o Azerbaijão e a Geórgia no oleoduto Baku, Tbilisi, Ceyhan, também conhecido como oleoduto CTC, que liga o Mar Cáspio ao Mediterrâneo e transporta 1 milhão de barris por dia.

Ao mesmo tempo, a Turquia sempre quis pertencer à União Europeia, mas tudo o que conseguiu foi ser membro do Conselho Europeu, as negociações para a sua adesão à UE foram interrompidas em fevereiro de 2019, após ter sido acusada de violar o Direitos Humanos em 2017.

Por sua vez, Erdogan está sendo ameaçado pelos Estados Unidos, por sua decisão de se aliar com a Rússia e se manter próximo ao Irã, lembre-se que após a tentativa de golpe de 2016, Erdogan foi politicamente asilado por Teerã após a Alemanha negar fazê-lo, o que foi o indício concreto de uma nova relação com o país persa.

Mas a Turquia se destaca pelo pragmatismo e não seria estranho se, diante da possibilidade de perder poder, acabasse mudando de lado, traindo seus aliados em nome do povo turco, embora no momento tenha muito a perder.

 

Sionismo no Mediterrâneo oriental

A Turquia quer ganhar influência no Mediterrâneo, pois além de lhe conferir uma grande riqueza petrolífera, faria dela a porta de entrada de energia entre a Europa e a Ásia, algo que vem conquistando lentamente.

Enquanto isso, nem o Egito nem a Grécia são um problema para a Turquia, já que Erdogan deve enfrentar um desafio maior, Israel, que de forma alguma quer perder sua oportunidade no Mediterrâneo oriental.

É importante destacar que, quando se soube da presença das reservas na área, Israel se apressou em assinar um acordo com a Grécia e o Egito para explorar a área, deixando a Turquia de fora.

Da mesma forma, Erdogan pensa que a ameaça grega, assim como a intervenção na Líbia, pressionou o Ocidente para forçar Tel Aviv a reconhecer o poder da Turquia como um ator importante no Mediterrâneo, já que alcançou metade do seu sucesso na Líbia e, apesar do erro na Síria, conseguiu tirar os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita de grande parte da Líbia e assinou um acordo com a Rússia.

Portanto, seu desafio não é com a Grécia, mas com Israel, o satélite dos Estados Unidos que, por sua relação simbiótica, não pressionará Tel Aviv, a menos que a Turquia ofereça algo que interessa aos Estados Unidos.

Mudança estratégica da Turquia do oriente para o ocidente

Até duas décadas atrás, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha tentaram fortalecer a ideia do neo-otomanismo na Turquia como uma ameaça estratégica ao Irã, à Rússia e às tensões no Iraque e na Síria, mas hoje Ancara mudou de estratégia para sair do impasse estratégico frente Europa e Estados Unidos.

Os turcos estão bem cientes disso e, embora tenham laços de cooperação com o Irã e a Rússia, evitaram a política errada de se comprometer cem por cento com eles, concentrando sua pressão na Europa.

Os recursos energéticos do Mediterrâneo oriental e um acordo com o governo de Trípoli na Líbia são a melhor oportunidade para a Turquia romper o isolamento geoestratégico competindo com Tel Aviv e Atenas em nome da Europa e dos Estados Unidos.

Se Ancara transferir completamente os terroristas armados de Idlib e Aleppo (deixando a Síria) para a Líbia, concentraria suas forças no Mediterrâneo oriental e conseguiria pressionar a Europa através da Grécia.

Mas, ao apoiar a resistência palestina em um confronto com Israel em Gaza, pode ser uma séria advertência a Tel Aviv de que a Turquia pode atingir seus objetivos e, como contrapartida, se evitar confrontar o regime sionista como no passado também perderá seus interesses. Por esta razão, a Turquia mantém o apoio à resistência palestina, que precisa do apoio do poderio militar turco.

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Valeria Rodríguez é analista internacional e co-apresentadora do programa "Feas, Sucias y Malas" da Rádio Gráfica, de Buenos Aires, Argentina.